domingo, 9 de setembro de 2012

O Processo do Conhecer Arte: Descobrindo poéticas pessoais.

Título: Sem título / Técnica: Grafite sobre canson x manipulação digital/ Autor: Jailto Santoz

Por Jailton Santoz

"Sempre faço o que não consigo fazer para aprender o que não sei" Pablo Picasso.
Venho revelar uma experiência minha em relação ao processo do conhecer arte, o processo do reencontro que me mostrou o conceito e significado de realização pessoal no fazer artístico, algo que ganhou a minha admiração e me fez mais do que um apaixonado, me fez um amante. Penso que a busca e a descoberta dessa realização deve ser inconstante na vida de um artista, sempre há algo novo para conhecer e sempre há o que aprender, principalmente nas trocas e nas relações dialéticas com outros artistas e outras poéticas. Esta é uma das maiores vantagens de seguir a área de arte por estar sempre lidando com o novo e poder buscar sempre mudanças.
Na minha infância após o período de alfabetização, passei estudar somente em escolas públicas, passando pelo processo comum de todos os alunos da rede estadual de ensino da Bahia em Salvador, lidando com as práticas da pedagogia tradicional até as mudanças da escola renovada. Em 2002 aos 13 anos de idade, no 8º ano do Ensino Fundamental, a escola em que eu estudava adotava uma prática de “escola e tempo integral” onde os alunos tinham a oportunidade de estudar em dois turnos, sendo um turno em aprendizagem regular e o outro em cursos profissionalizantes. Desde os meus sete anos de idade que eu rabiscava papeis, os desenhos que minha irmã vivia fazendo sem nenhuma pretensão profissional me chamavam muito à atenção e eu percebia que aquilo me atraia de uma forma muito especial e vivia desenhando não só em papeis, mas também na ladeira da rua em que eu morava, com gesso e pedaços de tijolos avermelhados, cerca de 70, 80 metros de cumprimento, onde as pessoas paravam para observar as mulheres peladas que saiam nas minhas criações. Sendo assim optei pelo curso de Artes Plásticas que para a minha felicidade a escola oferecia. Na Escola Parque, nas aulas da professora Isabel eu descobri e me descobrir em relação ao que queria para meu futuro, fui me certificando do que queria ser a partir das práticas dessas aulas, tempo em que a professora referenciava trabalhos de alguns artistas e pedia que os alunos se expressassem a partir do que mais gostava, do que mais chamava a atenção. Precocemente vivia perguntando a professora se fazer faculdade era muito difícil e o que eu deveria fazer para me tornar um artista e professor de Artes Plásticas... Relação esta que eu não tive no ensino regular nas aulas de Educação Artística com a professora Tereza, onde trabalhávamos apenas técnicas de desenho geométrico, um fato histórico no processo de mudanças no ensino da Arte.
No primeiro semestre de 2008 após ingressar na universidade no curso de Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas que posteriormente passou a se chamar Artes Visuais Licenciatura, peguei uma disciplina chamada Poéticas Visuais, ministrada pelo professor Antônio Carlos Portela, que de uma forma muito especial me fez descobrir qual era realmente a minha proposta como artista visual, eu que já tinha passado pelo processo de construções bi e tridimensionais nos vários estilos de natureza morta, marina, abstrato... No final da disciplina eu internalizei a relevância da descoberta das poéticas pessoais dos alunos nas aulas de Arte que eu ministrava nos estágios de regência, e aprendi a valorizar cada pincelada, cada traço pessoal de cada aluno, sabendo que a forma como desenhamos, como pintamos, como esculpimos é algo muito particular e deve-se despertar no aluno essa descoberta interna mesmo, a partir de experiências de outros artistas, das produções dos colegas, dos modelos prontos sim, não para copiá-los, mas para que o nível de conhecimento em arte e abstração possa ser significativo, fazendo com que o educando encontre o seu próprio criar, sua singularidade, seu traço, sua poética. Outra disciplina: Fundamentos da Linguagem Visual, ministrada pela professora Roseli Amado, pessoa na qual eu tenho uma admiração muito grande, também teve uma importância significativa por lidar com questões teóricas à estética das imagens, do conhecer as cores, os pontos, as linhas... E me fez digerir o valor que existe na educação do olhar, do conhecer texturas, pigmentações e relevos, para o vômito expressivo nas produções artísticas.
Como artista eu passei a reconhecer a importância que existe em ir ao íntimo, rever conceitos, rabiscar em todos os ângulos, de todas as formas e me reencontrar em uma proposta, em uma poética pessoal. Penso que o artista nunca está pronto, penso estar sempre em formação, mas o princípio básico deve ser esse despertar e desprender para o que se pretende expressar. Como educador em artes visuais levarei sempre em minhas práticas esse processo de descoberta nos alunos, a depender do que cada um almeja. Sinto essa necessidade pelo fato de ter tido a felicidade do reencontro, de ter passado por processos criativos e no fim deles chegar a um resultado positivo, um resultado que busquei e obtive com êxito. Sendo bom este resultado, mas nunca pronto, sempre inacabado, com brechas vulneráveis a conhecer sempre mais.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

O Reflexo da Polivalência dos Professores de Arte:

Inquietações e mudanças no ensino das diversas linguagens artísticas.



Turma de Licenciatura em Artes Visuais 2008.1 da Universidade Católica do Salvador
Por Jailton Santoz

Esta discussão visa à desapropriação da fragmentação das aulas de Arte a partir do ensino das diversas linguagens artísticas por um só professor, por fazer parte da grade curricular da disciplina de Arte assuntos excedentes ao o que o profissional aprende em suas áreas de formação, onde se se formam professores polivalentes pelo ensino de especialistas.  Trata-se da complexidade que é lhe dar com diversos campos de conhecimentos em arte sem que deixe a desejar em alguma de duas abordagens nas diversas linguagens da arte.
Um dos maiores problemas nas práticas do ensino de Arte no Ensino Básico ainda nos dias atuais é o reflexo da polivalência dos professores da área que mesmo depois da sua formação e toda bagagem de conhecimento adquirida jamais terão domínio sólido para lidar com as diversas linguagens artísticas em uma só disciplina, denominada Arte, após as mudanças na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB de 1996 com o apoio do movimento Arte-Educação, movimento no qual se tornou muito válido para o crescimento da área de arte nas escolas, principalmente por ter deixado de ser uma atividade educativa e se tornar disciplina com assuntos práticos e teóricos, porem ainda deixando a desejar pelo papel árduo dos professores em ter que lhe dar com essas diversas abordagens. As nomenclaturas dos cursos de graduação em Educação Artística ou mesmo depois da reforma em 2009, onde os cursos com as áreas específicas de habilitação passam a ser chamados de Artes Visuais Licenciatura, Música Licenciatura... Sob as diversas áreas de habilitação capacita o profissional em uma linguagem específica, sendo a abordagem geral sobre história da arte e o foco em artes visuais, ou música, teatro ou dança. Não existe formação em arte que prepara o  professor para trabalhar com as diversas áreas do conhecimento em arte em que o professor da rede pública ou particular tem tentado articular, deixando assim uma lacuna significativa e tornando muitas vezes infrutiferação em suas práticas de ensino.
Há alguns dias eu li um texto de Rejane Galvão Coutinho que é professora do Instituto de Artes, campus da UNESP de São Paulo que fala sobre o assunto de uma forma muito precisa:
“A formação dos professores de Arte no Brasil tem uma história peculiar, diferente da formação de professores de outras áreas mais estáveis do conhecimento que fazem parte do currículo escolar. Para ter-se uma ideia da complexidade da questão, é importante lembrar que a disciplina Arte só passa a fazer parte do currículo escolar com essa designação na nossa última LDB, em 1996.
A Arte e seu ensino têm uma história tortuosa no sistema educacional brasileiro, e essa história revela diferentes concepções e entendimentos dos objetivos e finalidades do ensino de Arte, evidenciando também suas fragilidades. Para um melhor entendimento da questão, destacamos aqui algumas relevantes concepções que vêm permeando a formação dos professores. Nos currículos escolares do século XIX e início do século XX, encontram-se as disciplinas de Desenho e de Música. O Desenho com o objetivo de instrumentalizar, de formar artesãos e trabalhadores para servir ao processo de industrialização, e a Música para elevar os espíritos – distinções que se apoiam nas concepções clássicas das “artes liberais” e das “artes mecânicas”. Concepções que vigoram nas escolas de Belas Artes, Liceus de Artes e Ofícios e Conservatórios de Música onde os professores são formados.
Em meados do século XX, seguindo a linha da instrumentalização, temos nos currículos escolares os Trabalhos Manuais, e nas escolas técnicas, as Artes Aplicadas e Artes Industriais. Por outro lado, a concepção de educação através da arte passa a impregnar o meio educacional, deslocando o foco de atenção do ensino artístico para a expressão de sentimentos e emoções, visando o desenvolvimento da criatividade dos alunos através de atividades nas diferentes linguagens artísticas. Essa concepção é incorporada pelas propostas modernas de educação e dissemina a ideia de que todo sujeito em estado de livre expressão é capaz de criar, espontaneamente.
Com essa multifacetada herança, a Educação Artística passa a fazer parte do currículo escolar nos anos 1970. Pela primeira vez, o ensino de Artes passa a ter um espaço definido na escola, com uma concepção polivalente, onde os professores de Educação Artística devem desenvolver atividades expressivas nas diferentes linguagens: artes plásticas, teatro, dança e música.
Como se formam professores de Educação Artística com tantas habilidades e conhecimentos em todas essas linguagens? É também na década de 1970 que as Licenciaturas em Educação Artística são providenciadas para suprir essa demanda e os novos cursos recrutam docentes com qualificações nas diferentes linguagens, herdeiros deste amálgama de diferentes concepções. As artes plásticas e a música têm já seus tradicionais cursos de formação de artistas e professores, as academias e conservatórios. No entanto, as linguagens do teatro e da dança têm que buscar no meio artístico profissionais capazes de se tornar docentes, pois essas duas linguagens pela primeira vez estavam entrando na escola como componentes curriculares, além do lugar por elas ocupado nas festividades escolares que já lhes eram próprias.
O resultado dessa formação esfacelada produz várias gerações de professores de Educação Artística com mal digeridas e superficiais concepções de Arte e de ensino de Artes. O espaço conquistado pelas artes na escola se fragiliza. Em sua grande maioria, os docentes responsáveis pela formação desses professores são especialistas em suas próprias linguagens. A ideia da polivalência nas artes é desestruturada pela própria estrutura dos cursos. Quer-se formar professores polivalentes com professores especialistas.
Esse quadro de desqualificação do ensino de Artes agrava-se e são os próprios professores de Artes que se mobilizam em busca de outras qualificações e formações. Por exemplo, a primeira linha de pesquisa em ensino de Artes no Brasil em nível de pós-graduação surge no final dos anos 1980 na Universidade de São Paulo, ajudando a delimitar e fundamentar a área através de reflexões e pesquisas. É a partir desse movimento que a disciplina Arte passa a fazer parte da LDB de 1996 como área de conhecimento, não mais como uma atividade artística do currículo.
Como a própria Arte, a área é intrinsecamente complexa por sua própria natureza, com linguagens específicas e diversas como as artes visuais, o teatro, a dança e a música, com possibilidades de intersecções e quebras de fronteiras entre elas. Porém, com seus saberes específicos, que demandam professores especializados e atualizados com os meios próprios de produção e com as novas mídias, assim como com as novas propostas de ensino e aprendizagem que dialogam com as questões contemporâneas e emergentes da sociedade.
É por conta de toda essa história sinuosa e complexa que a formação do professor de Arte precisa ser repensada em sua essência. Novos cursos de licenciatura em Artes Visuais, Artes Cênicas e Educação Musical estão sendo criados na UNESP. Entretanto, não basta que se mudem os rótulos. É necessário rever as concepções que permeiam a estrutura desses novos cursos. É necessário, também, que os docentes engajados nesses projetos revejam suas concepções de arte e de educação, buscando sintonizar-se com a demanda do campo de trabalho dos professores que estão formando. A história se justifica no entendimento do presente e nas possibilidades de mudanças do futuro.”


sexta-feira, 27 de julho de 2012

A Irrelevância da Releitura da Obra de Arte: Criação ou limitação criadora?


Por Jailton Santoz

"As práticas de ensino de Arte apresentam níveis de qualidade tão diversificados no Brasil que em muitas escolas ainda se utiliza, por exemplo, modelos estereotipados para serem repetidos ou apreciados, empobrecendo o universo cultural do aluno." PCNs 1998

Venho de uma inquietação no que diz respeito às práticas conservadoras do ensino de Arte direcionado a cópia / reprodução, que infelizmente ainda existe no contexto de nossas aulas de arte do Ensino Básico no Brasil. Na construção da releitura da obra de arte existem procedimentos a serem seguidos e cabe ao professor a responsabilidade de mostrar a positividade de uma releitura valorizando essa atividade ao trabalho criador e não reprodutor.

Nada contra as recriações que se sustentam numa releitura de uma pintura ou escultura, mas o que se torna inviável é quando essa prática limita o horizonte criativo e perceptivo do aluno. Em uma experiência minha, no meu período de estágio supervisionado acompanhei o trabalho de uma professora de Arte de uma escola pública que em grande parte de suas atividades práticas em sala de aula era a apropriação da bendita releitura da obra de arte, e além do trabalho repetitivo e de forma incentivadora da “cópia” e limitação criadora a professora utilizava como modelo imagens de obras de Tarsila do Amaral, o Abaporú, diga-se de passagem, era o mais escolhido pela turma. Num certo dia eu me autoquestionei por que a repetição das mesmas obras na prática pedagógica dessa professora era tão grande e perguntei a ela o porquê de limitarem-se apenas as pinturas de Tarsila... Ela me respondeu: “Eu acho melhor trabalhar com essas imagens por que são mais simples, são mais fáceis pra eles trabalharem...”. Eu, decepcionado com a situação pensei: É... Além da releitura infrutífera, tem mais esse problema, por que a visão é que os alunos são meros reprodutores da arte e não tem a capacidade, por exemplo, de reler uma obra de Velázquez...

Baseado nesses questionamentos eu criei um fórum de debates incluindo opiniões de quatro arte-educadores para saber qual a visão dos mesmos sobre essa prática, iniciei o debate da seguinte forma:

- Existem formas positivas de enxergar uma releitura, claro, mas ela é negativa quando se torna uma prática e quando se apropria apenas de composições digamos com traços mais simples e "fáceis" de reproduzir, preconceituando o aluno com inatingível avanço criativo...

Jamilson de Sousa - Acredito que a releitura quando praticada por um estudante do Enino Fundamental é válida, más que isso não deva se aplicar a profissionais de arte, a simplicidade na composição da forma e cores de quadros modernistas, cubistas, abstracionista geométricos, alguns impressionistas, entre outros é o que torna possível ao estudante melhor perceber as utilizações de variações cromáticas e auxilia no desenvolvimento da coordenação e poder de reprodução de um estudante, Velázquez é renascentista, trabalha com realismo e gradientes pictórios, a menos que seja um profissional, não haverá exito harmonioso nem de forma nem de cor. Pessoalmente não gosto de releituras de obras de artes visuais, prefiro usar a apropriação de obras literárias e abordar a capacidade de criação e de representação de idéias, isso só é possível também por uma série de exercícios e aulas sobre a obra literária e sobre diversas técnicas artísticas.

- Então Jamilson... Entendo sua colocação e agradeço pela contribuição nessa discussão, mas a questão aqui explorada não é viabilizar uma releitura para entender questões técnicas das cores ou formas, mas sim desmerecer uma reprodução que limita a possibilidade de criar do aluno, até por que existem milhões de meios para entender questões sobre cor e por que usar justamente uma releitura? E quando eu falei de Velázquez, é por que muitos professores de Arte não acredita no potencial do aluno e por ser uma obra mais "complexa".

Jamilson de Sousa - É isso merece uma conferência, tudo que aprendemos parte do princípio básico da comunicação, esta é uma releitura, só sabemos o que sabemos por que nos foi apresentado essa realidade e produzimos a partir da expressão dessas experiências de aprendizado, além disso, a utilização de uma obra numa releitura não a desmerece ou a inferioriza, muito pelo contrario, mostra sua força quanto objeto questionador e o torna mais popular, e de certo eu te digo, se mostrarmos uma pintura da Tarcila e do Velázquez a um estudante há mais possibilidade dele conhecer a primeira e há uma série de fatores a isso. Claro, é uma opinião profissional pessoal, e embora eu não faça prática da releitura de obras artísticas, não condeno a quem faça, apenas acredito que esse exercício pode ser melhor substituído por outras atividades, como você mesmo disse, nem o grito, ou a monalisa, ou o abaporú, possui essência menor que arte, e nem deixa de ser a mesma pelas releituras. Isso merece uma discussão mais profunda, não pelos certos ou errados, más pelos prós e contras.

- Sim, Jamilson de Sousa... Realmente seria muito mais completo esse debate se nos fosse permitido à oportunidade de uma "conferência" como você disse, para colocarmos pontos nos Is ou não, mas acredito na riqueza cognitiva que uma discussão virtual pode causar. Então... Eu não sei se você leu logo acima o que falei sobre a positividade da releitura, mas, mais uma vez faço questão de dizer que o que torna negativo é quando a releitura não tem nenhum fim criador, fato presente em muitas escolas nas aulas de Arte, infelizmente. E em relação ao entender que releitura é releitura por que "aprendemos" a partir da produção e expressão de experiências, digo que não necessariamente, até por que pra eu saber que "cair" machuca eu não preciso cair e me machucar para entender isso. E para conhecer uma obra de Tarcila, Velázquez ou outro pintor, não é necessário ter que reler uma obra de cada um deles. Eu também não condeno quem pratica a releitura erroneamente, quem sou eu pra condenar, apenas lembro-me das práticas vazias em arte da década de 60, e mais uma vez a questão aqui também não diminui ou inferioriza obra de artista nenhum, até por que o assunto é outro. Claro que a releitura vai dar essa possibilidade de aprendizado, mas existem muitas outras metodologias de aprendizagem para tanto. De forma alguma desmereço e / ou desconheço qual quer possibilidade positiva que uma releitura pode oferecer, mas sou desfavorável quando é a arte por arte e fico triste quando o professor não passa para os alunos o porquê estudar arte, por que é preciso conhecer arte e simplesmente defende uma prática como essa sem uma correlação consistente.

Sebastião Miranda Filho - Olá Jailton! Tudo bem? Acredito que essas discussões temáticas sejam um bom exercício de pensar a arteeducação, por outro lado vejo que nem sempre é possível reduzir assuntos complexos neste formato de comunicação: deu vontade de estarmos conversando longamente sobre o tema talvez sentados diante da capelinha do Unhão (Museu de Arte Moderna da Bahia), numa roda de colegas bem propositores. Leitura e Releitura merecem ser bem esmiuçadas como estratégias de apreensão e desenvolvimento do saber e do saber fazer Arte, mas dependem mesmo do educador generoso e não apressado - você tem toda razão!

Verdade Sebastião...Tudo bem sim. O meu desejo também seria este, poder discutir essa "problemática" de uma forma presencial até por que é um tema bem propositor, mas enquanto isso não acontece vamos explorando esses assuntos por aqui mesmo (risos). E como você falou sobre o "desenvolvimento do saber e saber fazer arte" é algo complexo para professores que desconhecem o conceito e significado da arte e simplesmente entendem a arte como objeto pronto (o belo) e não como proposta.

Cássio Almeida - A releitura torna-se exercício do olhar. Acredito no envolvimento da maneira abordada, possibilitando reflexões em vários territórios, independente da obra utilizada nesta proposição, a meu ver, a escolha deverá partir de um contexto de uma relação. Infelizmente muitos professores associam releitura com cópia /reprodução, inclusive quando fui lecionar pela primeira vez numa turma de fundamental I, na concepção de muitos alunos releitura seria reprodução, portanto a minha responsabilidade de mudar essa posição foi intensa. No entanto gosto bastante de fazer uma ponte/transpor para o contemporâneo. Quanto à questão das obras literárias, que fora citada como um instrumento de releitura, também uma possibilidade riquíssima, diálogo com verbal e não verbal, veículos que se contemplam a todo momento. Já usei poesias de Manoel de Barros para processo de criação, uma releitura do poema por meio da linguagem visual. As releituras nos surpreendem! Abraços a todos!

- Com certeza Cássio! Obrigado também pela contribuição. Eu sou 100% favorável quando a apropriação da releitura é para fazer pontes como nessa citação referente às obras literárias, quando proporcionará algo criador. Sou contra quando ela se torna uma prática de reprodução, como você disse: “isso é um conceito de muitos alunos” quando a releitura visa à cópia e não trás nenhuma experiência artística. Não consigo enxergar uma releitura de uma pintura ou escultura como não veículo de reprodução ainda que isso vá causar mudanças, algo que vá diferenciar, até por que não existem duas pinturas iguais, mas de certa ou errada forma a limitação criadora vai acontecer, a ponto de “ter” que seguir a mesma temática, limitar-se a imagem que está a frente.

Cássio Almeida - Entendo Jailton Jack com seu ponto de vista. A Releitura é uma discussão bastante complexa, na história da arte, vejamos inúmeras inspirações, irei citar a obra "A Dança" de Matisse, partiu de inspiração, (na minha análise a vejo como releitura a obra de Lucas Cranach chamada " Das Goldene Zeitalter"). Como há outros artistas que procuraram e continua procurando inspirações, outro exemplo, a Obra de Courbet "A origem do mundo" foi inspiração e ponto de partida para uma releitura na produção do artista Henrique Oliveira (instalação: A origem do terceiro mundo) assim questões de criação pode partir de um pressuposto, não limitando o processo criativo, tais inspirações as vejo como um processo de releitura, não ocasionado à limitação e sim uma transgressão sustentada por referências. Um abraço!

- Então Cássio... Achei bacana a fundamentação que você buscou, mas quando a releitura parte de uma pintura para uma instalação com água, vento e fezes é uma realidade, de forma que sou totalmente a favor, mas quando está dentro do contexto escolar e estimula a reprodução dos mesmos traços e cores numa outra pintura se torna algo bem negativo.

Sebastião Miranda Filho - Acredito que o educador deva acordar com o grupo da intencionalidade da atividade proposta em cada momento. A cópia também faz parte da construção do desenhista/pintor e é importante na passagem da estética infantil para a estética adulta. A Rosa Iavelberg fala disso muito bem. Mas isso tem que estar amadurecido no educador como uma possibilidade no uso das reproduções de obras de arte na escola e não ser sinônimo de leitura e releitura de obras de arte.

- Eu sempre estou aberto a aprender, acho que trocas sempre de alguma forma são ricas, mas vou discordar pelo reflexo que essas atividades propostas como "cópia" nos remetem... Como por exemplo, a mera atividade educativa em arte na década de 60, que se baseava em modelos prontos como via de reproduções, gerando um trabalho imediatista e sem proposta criadora. Prefiro a aproporiação de modelos de pinturas, esculturas para a explanação teórica onde se insere na história da arte e também como elemento estético para apreciação e fonte de explicação técnica de construção no processo criativo do aluno, sem que ele precise copiar e sim criar o seu prórprio trabalho.

Cássio Almeida - Eu já presenciei práticas por meio de falas semelhantes as que foram relatadas. “Cópia também faz parte da construção do desenhista/pintor", isso na esfera técnica, em ateliês que oferecem pintura em tela, um mecanismo muito constante, onde encontramos revistas com produções artísticas em tela, para serem usadas como modelo. De certa maneira priva a criação. No âmbito escolar a visão de reprodução foi sustentada por muito tempo, como apontado pelo Jailton Jack. Acredito no nosso intuito como arte-educadores estimular, propor momentos que promovam a criação por meio da reflexão, fundamentando a arte, mostrar ao aluno seu papel na sociedade como agente cultural de seu espaço e suas poéticas.

- Perfeitamente Cássio Almeida. O problema em muitas práticas em arte na escola é justamente essa, a ligação direta a oficina de artes plásticas, a direcionado a técnica na apropriação de modelos prontos. Se nós arte-educadores não soubermos mostrar a diferença entre arte-educação e oficinas de arte, jamais o ensino de Arte irá progredir.

Sebastião Miranda Filho - Bem, desculpe discordar, mas não acho que o arte-educador deva estar somente no ambiente escolar e o artista educador nos ateliês de arte - não acredito como arte-educador que este formato de escola com mais de 30 alunos por sala anime qualquer ação educativa em arte, então prefiro os espaços educativos fora das escolas com arte-educação. Eles estão nas ruas, nos centros culturais, nos museus, nos ateliês, e até nas escolas, desde que não tratando pessoas no atacado como se apresenta na maioria das vezes.

Jamilson de Sousa - A escola não forma o aluno, o profissional em arte educação sim. Adorei o papo.

- Então meu querido Sebastião Miranda Filho... O que eu coloquei acredito ter sido muito claro, quando eu me refiro ao trabalho de arte-educação que em sua proposta vai além de criações e releituras como em oficinas que se torna algo mais "prático" e imediatista "acadêmico". Acho que educar em arte não se limita a uma sala de aula, é claro, os museus, exposições, o cemitério, a urbanização     existe “para isso”, para arte-educar buscando uma extenção além do contexto escolar. Estou muito feliz com esse debate por que gera crescimento, mostra a criticidade de cada um e quanto as diferentes opiniões sou favorável por que todos nós tivemos uma formação e cada um a digeriu de uma forma singular.

Sebastião Miranda Filho - Sim Jailton, é isso que vai deixando cada vez melhores as discussões, parabéns por propô-las. O que eu dizia quanto a preferir rodas de conversas presenciais, é que nelas poderiamos localizar estas diferenças conceituais com mais clareza. Concordo desde o início do mau uso das releituras como são feitas na sua descrição; ninguém merece copiar as mesmas Tarsilas simplesmente por copia-las. Sabemos das infinitas possibilidades de abordagens na arte educação a partir de uma boa reprodução de obra de arte ou de um original. Acho que o mau uso acontece quando o educador não tem bom repertório de leitura e exploração da leitura com o grupo antes de propor a releitura, incentivando esse exercício com toda a liberdade de criação apoiada por esses repertórios conceituais proprios da releitura, como a apreensão, a citação, a intertextualização e quando for o caso a cópia.

- Exatamente Sebastião!

Márcio Prado - Interessante observar os pontos positvos e negativos nas tentativas de inserir o aluno através de variadas práticas... Como bem colocado antes os modelos estereotipados limitam a criação do aluno, gosto da releitura na arte-educação com o objetivo claro de deixar automaticamente na zona de criação, sobre releituras de Velázquez... Gostei muito do que o colega Jamilson falou e concordo com ele de que haveria dificuldades no exito harmonioso de forma e de cor. Meus parabéns a todos pelas colocações, li e achei todos os comentáros muito ricos.

- Meu querido Márcio Prado, meu amigo e ex-colega de faculdade, obrigado também pela contribuição nesse debate riquíssimo, estou muito feliz com a repercussão dessa discussão. Então... Eu estou ciente de que o mundo é formado por diferentes opiniões, a final se não fosse assim não haveria criticidade. Mas vou de encontro com você quando diz que concorda com "haveria dificuldade no exito hamonioso de forma e cor" acreditando que a releitura proporciona essa situação, não que a prática de reler uma obra não proporcione tal experiência, mas por que não estudar técnicas de cor ou o que seja numa produção criada pelo próprio aluno? Quero dizer que existem diversas metodologias para tanto e sendo assim não teria com haver dificuldade alguma, muito pelo contrário o aluno criando sua própria obra no estudo sobre forma e cor ele não seria estimulado a reproduzir/ copiar e não deixaria de aprender essas técnicas em sua prática. Prefiro que a apropriação de uma obra de arte se direcione a apreciação e leitura estética, ou mesmo estudar questões cromáticas e técnicas além das referências na história da arte. O mais inquietante que pude ler nesse debate referente à releitura foi “auxilia no desenvolvimento da coordenação e poder de reprodução de um estudante” na citação do colega Jamilson... Gente, coordenação e poder de reprodução se tornam diretamente utilitarista e imediatista, escapando-lhe a dimensão do criar a partir de sua poética pessoal, ou seja, dessa forma estamos regredindo a década de 70, 80 voltando para as aulas de “Educação Artística” tempo em que estudar “arte” era a apropriação de fatores mecânicos que a sociedade desmerecia muito mais do que nos dias de hoje desconhecendo o valor e a importancia existencial da arte.

Cássio Almeida - Agradeço ao Jailton Jack por propor discussões tão significativas.

- Eu que agradeço pelo retorno de vocês. Até a próxima!

A intenção proposta aqui é gerar reflexão principalmente para os professores de arte, os professores de outras áreas que ensinam arte e para os alunos, que a partir do momento em que eu deixo de criar, automaticamente deixa-se de produzir arte enquanto proposta.

“A arte começa quando a imitação acaba.” Oscar Wilde


sexta-feira, 13 de julho de 2012

O Nu Artístico Nas Práticas Pedagógicas de Arte.


(Título: Sem título. Técnica: Grafite sobre canson. Autor: Jailton Santoz)
                                                                                                                                Por Jailton Santoz


"O ser humano que não conhece arte tem uma experiência de aprendizagem limitada.” PCNs 1997


Na abordagem teórica do ensino de arte é impossível não contextualizar a presença do nu artístico no período da pré-história até os dias atuais, como no exemplo da Vénus de Willendorf, dos nus de Tarcila do Amaral e Anita Malfatti na arte moderna, e as fotografias, instalações e performances no contexto da arte contemporânea que exploram o nu como proposta artística. Mas a questão é que na prática do ensino de arte a parte de produção artística direcionada ao nu tem chocado bastante, tem sido alvo de questionamentos e causado repulsa entre gestores, pais e muitas vezes pelos próprios alunos por entrar em contato visual com a sexualidade e por consequência de fazer alusão ao erotismo e a sensualidade.

Numa experiência minha em sala de aula, foi bem tranquilo em relação a essa “problemática” na exploração do nu. Eu trabalhei com turmas do 1º ano do Ensino Médio e primeiramente foi preciso fazer um paralelo com a História da Arte, mostrando a presença e importância da abordagem histórica para complementar cognitivamente o processo criativo da prática, ou seja, mostrar a importância de estar vivenciando uma produção de pintura ou escultura para que o aluno soubesse o porquê ou pra que estudar arte, acreditando ser fundamental a relação teoria e prática inserindo a abordagem triangular que envolve produção, leitura estética e contextualização.

Há alguns dias li um artigo em um site que falava sobre a repulsa de estudantes em                 uma universidade no Amazonas por presenciar uma performance artística que envolvia quatro corpos nus onde o corpo era utilizado para exemplificar o processo criativo da técnica de monotipia. A matéria ressaltou:
Uma apresentação artística com quatro estudantes nus chocou estudantes da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), em Manaus, na quarta-feira (21). A acolhida aos calouros no curso de Licenciatura de Artes Plásticas durante o projeto ‘Café com Artes’ gerou polêmica. As informações são do portal “G1”.
Alguns estudantes se sentiram constrangidos diante da apresentação, que pretendia mostrar como funciona na prática a técnica de monotipia (processo de impressão artística por meio do qual se transfere, por pressão, uma pintura em cobre, vidro ou matéria plástica, para o papel). “As pessoas não estão acostumadas com esse tipo de coisa. Apoio quase todas as manifestações de arte na Universidade, mas essa foi meio tensa”, declarou ao portal de notícias o aluno do 4° período de Língua e Literatura Francesa, Bruno Davila.
“A roupa só iria atrapalhar [o processo]”, contou o idealizador da mostra, Fabiano Barros. Segundo o autor do trabalho, a mostra foi autorizada pelo professor Doutor do Departamento de Artes da Ufam, Otoni Mesquita. “Ninguém esperava um trabalho tão audacioso, porque 99% das pessoas têm medo ou repulsa ao nu, à beleza natural”, acrescentou.
Segundo a chefe  do Departamento de Artes, Denize Piccolotto, o nu artístico não chegou a acontecer porque os alunos usaram tapa sexo e estavam com o corpo pintado. “Eu acho que falar mal disso, em pleno século XXI, é um exagero por parte de pessoas que desconhecem o valor e o significado da arte”, disse a professora.”
A minha preocupação maior foi por que o evento prestigiava alunos calouros na abertura do semestre do curso de Licenciatura em Artes Plásticas da universidade, ou seja, se no próprio meio acadêmico houver esse distanciamento, jamais o nu artístico será bem visto no ensino básico ou em qualquer lugar. Nós enquanto artistas e arte-educadores temos a responsabilidade de buscar subsídios para a melhor compreensão desta questão e o compromisso de transmitir a proposta do nu enquanto arte, independente do que pode ser refletido como consequência. A questão é que arte ainda é um conhecimento fragmentado para grande parte da população brasileira, e entender arte contemporânea é algo mais distante ainda. Neste mesmo site de pesquisa encontrei uma matéria ainda mais absurda, a mesma ressaltou a demissão de uma professora por “incentivar” o nu em sala de aula.  O texto dizia o seguinte:
Uma professora do 7° ano de uma escola pública de Luís Correia (344 km de Teresina), foi demitida pelo governo do Piauí por ter pedido a um aluno que tirasse a roupa em sala de aula para que outros estudantes o desenhassem. A denúncia foi feita pelo Conselho Tutelar do município, que viu constrangimento dos alunos com o fato.
A demissão da docente foi publicada no Diário Oficial do Estado da última segunda-feira (22), após conclusão de um longo processo de sindicância que apurou as circunstâncias do fato ocorrido em abril de 2010, na escola Ricardo Augusto Veloso.
De acordo com a professora acusada, durante uma aula em que falava sobre mitologia grego-romana ela perguntou se algum dos alunos queria ir à frente da sala de aula tirar a roupa para que os outros estudantes da classe o desenhassem como uma escultura.
Um dos alunos aceitou o convite e começou a tirar a roupa. Logo após tirar a camisa e a calça, uma aluna afirmou que se sentiria constrangida com a situação, e a atividade teria sido suspensa imediatamente, sem mais constrangimentos.
A comissão que investigou o caso entendeu que houve “falta grave” e descumprimento do estatuto do servidor público e lei complementar que regulamenta a educação no Estado.
A comissão também concluiu que houve constrangimento por parte dos alunos com a iniciativa da professora. “Dada a gravidade da ilicitude praticada, a Comissão Processante conclui que a servidora indiciada merece ser punida com demissão.
O Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Piauí questionou se o caso mereceria uma demissão por justa causa e prometeu analisar o fato.”
Penso que existem diversas formas metodológicas de exemplificar um nu artístico em sala de aula depois de uma abordagem histórica, de fazer referências com fotografias, pinturas, esculturas para uma produção prática de desenho, porém não há mal algum em se apropriar de um modelo vivo para a inspiração do trabalho, desde quando não comprometa a integridade de ninguém e não vá ferir ou ir de encontro com o regulamento da instituição de ensino. Fiquei impactado com a demissão da professora por esta razão, sou favorável que equívoco da mesma foi uma falta grave por ter sido infeliz em sua metodologia, mas acredito que deveria existir uma maneira mais flexível para a “punição” da mesma. Infelizmente a sociedade ainda é muito “verde”, despreparada de tal maneira a ponto de encarar como politicamente correto as diretrizes estipuladas por ela, tão somente enxergar o que é certo aquilo que é aparentemente belo. O mais interessante de tudo isso é: Por que o nu choca na arte e no carnaval é peça fundamental? Um exemplo disso é a performance da famosa bailarina titulada como “Globeleza” exibida para todas as faixas de idade na mais prestigiada emissora da TV brasileira. Por que a minissaia, mini shorts e tops que incentivam a sensualidade, o erotismo é prestígio na moda brasileira? Tais situações certamente são vividas por pessoas que desconhecem o conceito e valor da arte, pessoas que tiveram uma experiência de aprendizagem limitada. Este é mais um exemplo de que é preciso sair do estado de alienação e manipulação do que é aparentemente correto e buscar a criticidade de uma maneira mais relevante e fundamentada.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Dos Preconceitos Contra o Ensino de Arte: Reflexos negativos do passado.


(Representação de pintura rupestre em Chapada Diamantina por alunos do 1º ano do Ensino Médio)
Por Jailton Jack

Arte na educação não é mero exercício escolar” Ana Mae Barbosa
A intenção desta discussão é gerar reflexão, cognição e a busca da resposta para as visões e perguntas mais frequentes sobre a disciplina de Arte em se tratando de sua finalidade e importância na educação escolar, mais precisamente quando um aluno pergunta: “Pra que estudar arte? A gente vai desenhar ou pintar hoje?
Em meados do século XIX, por volta do ano de 1854 o ensino de arte resumia-se a uma simples atividade escolar. Os gestores e professores das escolas tradicionais consideravam o trabalho em arte como o momento do lazer, o momento do “recreio”, tempo em que os professores responsáveis por determinadas turmas acompanhavam os alunos com noções de música, canto, desenho e trabalhos manuais sem interferir no trabalho dos alunos, sem dar se quer nenhum ponto de partida com a explicação
técnica dos materiais, ou mesmo a explicação de qual seria o objetivo do exercício, ou seja, a intenção era que os alunos se expressassem livremente, sendo que desta forma a produção em arte se tornava vazia e sem nenhuma proposta significativa. Anos depois, no início do século XX, configuram-se na estrutura curricular das escolas primárias e secundárias as disciplinas de Desenho, Atividades Manuais e Música e Canto Orfeônico, passando a ter política educacional e ganhando participação na estrutura curricular, porem conduzida por professores sem formação adequada ou então por artistas sem nenhuma formação acadêmica e noções didáticas, por haver pouquíssimas instituições superiores com cursos da área até a década de 60. A prática pedagógica em Arte se baseava em modelos de culturas dominantes, cópias e reproduções de trabalhos artísticos que eram considerados belo. Visão fragmentada que privilegiava tão somente a estética dos trabalhos, ou seja, o olhar para o “belo” da época, acarretando assim uma produção utilitarista e imediatista em arte, também nas produções de desenho que simplesmente não entrava como experiência artística por ser aplicado o desenho geométrico de forma crua e cruel.  As atividades relacionadas ao teatro e dança não eram obrigatórias, somente eram aplicadas com fins direcionados a festividades escolares em períodos de datas comemorativas, de forma  mecânica os alunos decoravam os textos, as formas de dicção e representavam. Nas danças simplesmente reproduziam as coreografias fixas para serem contemplados pela plateia. Um período depois foram reformulando as propostas pedagógicas para o ensino de arte e surgiram as disciplinas de Desenho, Desenho Geométrico, Artes Plásticas, Música e Arte Dramática, desta vez delimitando de forma mais específica o ensino das linguagens artísticas. Em 1971 arte é incluída no currículo escolar com o título de “Educação Artística” pela LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, mas não considerada como disciplina e sim “atividade educativa”, sendo assim as instituições de ensino superior passou a implantar a formação docente na área de Educação Artística, sendo que esta formação era um tanto que fragmentada por ser baseada em técnicas e sem bases conceituais, somente para cobrir o mercado aberto pela lei. O professor recém-formado tinha que exercer a função ministrando as diversas linguagens artísticas, resultado: Fragmentação de conhecimento, infrutiferação e falta de preparo para ensinar arte.
Por consequência das grandes lacunas no processo ensino-aprendizagem em arte, surge nos anos 80 um movimento criado pelos professores da área chamado “arte-educação” com a intenção inicial de integrar e aprimorar a formação docente dos professores de arte, e a partir daí foram surgindo encontros, debates e discussões sobre a formação adequada, a valorização dos professores e mudanças de concepções em ensinar arte. Depois de muitas discussões e reivindicação de educadores referente à LDB que tira a obrigatoriedade do ensino de arte no Ensino Básico, surge em 20 de dezembro de 1996 a nova LDB que sanciona a obrigatoriedade do ensino de Arte no Ensino Básico, a ser considerada como disciplina e designada como Arte e não mais “Educação Artística.”
 “O ensino da arte constituirá componente curricular obrigatório, nos diversos níveis da educação básica, de forma a promover o desenvolvimento cultural dos alunos” (Lei no 9.394/96,artigo 26, parágrafo 2 ).
Este histórico do ensino de Arte é peça fundamental para esta discussão, sem esta correlação jamais saberíamos por que ainda hoje nos deparamos com os preconceitos contra o seu ensino, agora sim entendemos o porquê das “piadinhas” de que ensinar arte é ensinar qual quer coisa, o porquê até hoje os gestores escolares enxergam os arte-educadores como meros decoradores de escolas em tempos festivos, de tal forma pode-se associar ao marco negativo do passado do ensino de arte, alias melhor dizendo, do ensino vago, vazio e infrutífero da década de 60. Razões não faltam para desanimar, determinadas situações que vivemos em sala de aula muitas vezes nos perguntam por que precisamos fazer com que as pessoas e principalmente os alunos conheçam arte, já que suas mentes parecem estar fechadas para tanto? Numa aula prática, as coisas ocorrem muito bem, mas quando se trata de falar sobre História da Arte, os questionamentos veem a tona: “Professor isso é História!, Artes no ano passado era apenas pintar e desenhar... Prova de Artes????...” Situações como estas são bem comuns depois de já ter uma vaga experiência em sala de aula, por que nos estágios, nos primeiros contatos com os alunos não dar pra sentir tanto o tamanho do problema, pois receber uma dessas depois de se preparar com tanta dedicação em disciplinas na faculdade, discutindo assuntos, conhecendo arte como conhecimento, como cultura, defendendo a área, não é fácil! Além de ter que aceitar a carga-horária inferior às outras disciplinas consideradas “disciplinas sérias”, e de fato não estar sendo cumprida a LDB de 1996 de forma integral por Arte não fazer parte da grade curricular de todas as séries do Ensino Médio.
Os marcos do passado estão presentes em muitas das vezes até na formação acadêmica do professor, apesar de já existir hoje até pós-doutorado na área. O que falta é conhecimento! O que falta é saber primeiramente o que é arte, qual o seu fundamento e importância na vida. Será que somente saber que arte desde a pré-história foi à primeira manifestação do homem é necessário? - Claro que não! Então o que é preciso para que as pessoas enxerguem o seu verdadeiro valor? – É necessário entender que vivemos num país rico em cultura e até hoje não a conhecemos de forma precisa. Infelizmente a educação cultural é para poucos, numa nação cujo país é “O país do futebol”, e não da cultura e  educação.
Infelizmente ainda vivemos num país onde o grafite é crime e a corrupção é arte!



sábado, 2 de junho de 2012

Ensino de Arte em Iraquara - Chapada Diamantina - BA: Centro Educacional Manoel Teixeira Leite


 Fotografia: Jailton Santoz

                                                                                                  Por Jailton Santoz
                “Se arte não fosse importante, não resistiria desde a pré-história às tentativas de menosprezo.” Ana Mae Barbosa
Neste mês de junho, farei oito meses que passei a morar em Iraquara- BA, eu que sou soteropolitano, tenho sido alvo de questionamentos de alguns alunos e professores, por qual razão eu teria saído da “Grande Salvador” para morar nesta cidade do interior... O meu feed back foi bem direto e objetivo, tenho explicado essa razão pela paixão por arte rupestre, que desde o primeiro semestre da faculdade, na disciplina de História da Arte 1 – Professora Marta Guedes, no curso de Licenciatura em Artes Visuais na UCSal – Universidade Católica do Salvador,  pude conhecer um pouco mais sobre essa herança ancestral que de forma ofegante me passa visualmente o poder para exploração imagética e poética, ainda que tenha sido há muitos anos objeto de estudo dos antropólogos, arqueólogos e historiadores, ainda que já exista sob diversos pontos de vista de diversos autores a vasta explanação sobre o assunto o meu desejo acompanhado de anseio é fazer um levantamento iconográfico  desses registros para um paralelo entre pinturas rupestres e a história da arte brasileira, fazer um mapeamento de alguns sítios arqueológicos em Iraquara para a construção de um projeto de pesquisa para o mestrado em História da Arte pela UFBA- Universidade Federal da Bahia em Salvador no período do Estágio Probatório.
No ano de 2010, surgiu a oportunidade de fazer o concurso público do Estado da Bahia, estando no penúltimo semestre da faculdade fiz o concurso, passei em primeiro lugar e um mês depois da minha formatura fui convocado e logo depois nomeado para a área que desde os 12 anos de idade sonhava em ser “professor de arte”, nuca pensei em ser outra coisa. Chegando a Iraquara sem conhecer nada e ninguém no dia 21 de outubro de 2011, uma sexta feira às 10h00min, tomei posse e fui me acomodando na cidade que de forma maravilhosa me recebeu muito bem, levarei sempre comigo a lembrança dessa cidade e os amigos que aqui conquistei. Na semana seguinte comecei minha jornada de trabalho e fui conhecendo os gestores, professores, funcionários e alunos. Ao longo das aulas fui percebendo a carente exploração da disciplina de arte de forma a valorizar suas premissas básicas, tempo em que (segundo os gestores) nunca houve professor de arte com formação adequada para o cargo, e assim foram juntando as peças em minha mente, fui conhecendo o território do CEMTL – Centro Educacional Manoel Teixeira Leite, conhecendo também a aptidão pouco explorada dos alunos, suas poéticas pessoais e iniciei meu trabalho com orgulho, dedicação e em primeiro lugar: Paixão, este é o segredo do sucesso de qualquer profissão, a realização pessoal precisa sempre vir primeiro.
Depois de ter desenvolvido trabalhos práticos, teóricos e experimentais com os alunos, tenho já uma ideia significativa em relação às diferenças culturais / regionais dos educandos iraquarenses do CEMTL e tenho tido retornos bem positivos tratando-se de mudanças e inovações no ensino de arte nesta instituição.
Há poucos dias um aluno do primeiro ano do Ensino Médio, ressaltou: “Professor, Artes nunca foi tão difícil, em se tratando de ter conteúdos, seminários e provas...” A princípio eu poderia ter ideias precipitadas e entender que ele não estaria gostando e nem sabendo lhe dar com a disciplina, já que segundo ele nos outros anos em Arte trabalhava-se apenas a prática da produção artística sem a correlação com a leitura imagética e a história da arte. Essa situação pra mim foi bem curiosa, a ponto de abrir mais os olhos e fazer um acompanhamento maior deste aluno no seu processo de aprendizagem. No final da unidade este aluno foi um dos melhores, quantitativamente e qualitativamente, obteve uma das maiores notas da sala e me fez concluir que seu questionamento foi apenas uma mudança de visão sobre Arte. Eu fiquei muito satisfeito e feliz por que sinto a necessidade de fazer diferença e mostrar o verdadeiro valor da disciplina, desmerecida muitas vezes pela própria escola e pelos próprios professores da área que nem sempre tem mostrado o porquê estudar arte, ou qual a importância da sua existência. Se o professor não conhecer esse valor e não souber passar para os alunos o fundamento e objetivo da educação cultural, os alunos jamais saberão o que é cultura, o que é conhecer arte e dessa forma as mudanças serão apenas temporal e as qualidades serão as mesmas.